12 anos de escravidão – 12 years a slave, Steve McQueen [2013]

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Estive enganada subestimando o quanto apreciaria o filme achando que a temática já estivesse “manjada” para o momento, pois muito recentemente tivemos Preciosa, Histórias Cruzadas, Django Livre, Obsessão e Lincoln, mas felizmente esse filme me lembrou do quanto ele é necessário e o quanto o tema deve ser retratado mais e mais vezes para que sejamos lembrados que temos tudo a ver com o racismo, no qual podemos não estar sujeitos por termos tido privilégios.

É um filme muito triste, mas necessário, terminei de assistir e lembrei-me do quanto queria que o mundo funcionasse como as fantasias do Tarantino onde Django e Brumilda saem ilesos e fazendo justiça a todos os escravos negros, onde Hitler e importantes líderes nazistas são incendiados em um cinema e onde mulheres se juntam e eliminam um sujeito “mascu” e temperamental como em “À prova de morte”. Mas não, o mundo não é assim e está muito longe de ser, engana-se quem pensa o contrário e “12 anos de escravidão” não eufemiza em retratar esse mundo, o mundo real, de 120 anos atrás, mas com sequelas que perpetuam até os dias de hoje.

O filme me deixou ainda mais envergonhada com a trajetória de caráter nocivo dos brancos opressores e mesmo não trazendo nada novo relacionado a barbáries cometidas com escravos, ganha mérito por focar no lado psicológico do personagem principal em sua experiência ao ser submetido a torturas dolorosas em que não esperava vivenciar por acreditar exercer sua livre cidadania. Interessante quando Solomon desperta acorrentado e tem apenas um pequeno episódio em que resiste à condição imposta, depois ele acaba percebendo que nunca esteve de fato livre, pois sempre foi visto como inferior por ser negro e acaba inconformadamente conformado se agarrando ao que lhe resta, a luta por sua sobrevivência.

Outro destaque para o filme é a novata Lupita Nyong’o, que nos conduz a condição de opressão que vai além: a de mulher e de escrava. O que me lembrou dos ensinamentos da maravilhosa Simone de Beavouir, que explica que o senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica e que o homem e a mulher estão ligados por uma necessidade fisiológica. O escravo ao se libertar do senhor pode muito bem viver no mundo sem depender deste, assim que seus medos são superados e sua autonomia é conquistada. Já a mulher, na condição de oprimida, está ligada ao homem por uma necessidade da espécie, não poderá estar no mundo sem coexistir com o homem, estando destinada a depender de seu opressor.

Sendo assim, Patsey é submetida a uma dupla inferiorização, a moça vive o dilema de ceder aos favores de seu senhor por tratá-la com favoritismos bem intencionados (opção que lhe é bem ofertada quando mostra uma senhora ex-escrava que escolheu por ter uma boa vida ao lado do senhor seu dono, aconselhando Patsey a fazer o mesmo) e a culpabilização que sua senhora faz com acusações moralistas de que a escrava esteja seduzindo seu esposo.

No entanto, amordaçada pela dor de viver em tamanha opressão, parece evidente que Patsey prefere ser tratada como as demais escravas a estar cercada pelos caprichos de seu dono, ser vítima do patriarcado é para ela ainda mais terrível que sofrer as comuns barbáries da escravidão. Michael Fassbender (só mesmo um ator equilibrado para interpretar tão bem um personagem desequilibrado) está a cara do paternalismo, interpreta o sádico senhor que acredita veemente estar atuando em nome de Deus como diz na Bíblia e se acha merecedor e dono de Patsey em overdose.

O filme ainda tem a trilha do Hans Zimmer como se a angústia embelezada pela melancolia não fosse o suficiente e peca apenas com o mal escalado Brad Pitt. Torço por Lupita para atriz coadjuvante, além de ser uma atriz promissora, suas concorrentes terão mais oportunidades em Hollywood, essa seria “a chance dela” e também uma grande conquista para as mulheres negras tão pouco lembradas pela academia. Acredito que a mensagem final desse magnífico filme reforça um apelo à humanidade para que essas atrocidades sejam repensadas e nos lembremos de que temos muito a ver com cada chibatada de cada açoitamento brutalmente exercido durante anos.

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Sobre Carolina Alves

Feminista, cinéfila, bookaholic, Assistente Social, mestranda em Sociologia, desbravadora insaciável dos estudos de gênero, vive dando sua opinião não-requisitada sobre música, tv, cinema, política, literatura, vida alheia e futilidades acaloradas via twitter. @fuckyeahcarol
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