Woody Allen: é possível separar o gênio do agressor?

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Muito vem me incomodando a quantidade de argumentos usados para inocentar o Woody Allen das acusações de abuso à Dylan Farrow, enfatizadas em carta aberta ao público devido à última cerimônia do Globo de Ouro, na qual o diretor foi homenageado.

Eu já conhecia a história do Woody Allen e da Mia Farrow, mas pra muita gente isso é novidade, então já o via com os mesmos olhos que o vejo hoje: não é meu diretor preferido, mas o considero um gênio, sua obra é impecável, mas infelizmente ele não deixa de ser em minha opinião um monstro repugnante. Não tenho provas de que ele realmente molestou a filha, não tenho, óbvio que posso estar errada, mas tenho o direito de acreditar em um dos lados, e prefiro acreditar que ele não é inocente, prefiro acreditar na palavra de uma criança de 7 anos e hoje mais ainda acredito na palavra de uma mulher que corrobora que desenvolveu distúrbios devido ao terrível trauma que sofreu quando nem mesmo “se entendia por gente”.

Gostaria de dizer que não acho justo que Mia, Ronan e Dylan tenham culpado a indústria cinematográfica, os atores, fãs e colegas de trabalho de Woody, eles realmente não têm absolutamente nada a ver com as acusações, mas os entendo muito bem. Eu os entendo, pois me coloco no lugar de uma mulher que passou por isso e dos familiares dessa mulher, que foi abusada dessa forma e imagino-a e seus familiares tendo que ver o rosto do abusador em todos os lugares, de vê-lo em cartazes, na TV, influenciando gerações, recebendo prêmios e menções honrosas ao redor do mundo. Se já é difícil para quem já foi vítima comumente de pedofilia, imagina pra quem foi vítima de pedofilia de uma das maiores personalidades do planeta?

Sei que o meu veredito não importa, mas eu gostaria que as pessoas deixassem o “artista” de lado e refletissem um pouco no lado menos privilegiado da história. De quem é a voz? Quem tem maior poder? Um homem inquestionavelmente adorado e bem sucedido ou uma mulher de identidade pouco notória?

Será que o relato de uma criança que realmente diz ter sofrido abuso é tão dispensável para que ignorássemos tudo e preferíssemos confiar apenas na não comprovação judicial ocorrida na época? Dizer que foi abusada na sala, no quarto, no banheiro, assistindo TV, fazendo a tarefa escolar, faz sim, todo o sentido. Mas como se prova isso? É a palavra do agressor contra a da agredida, simples assim. E mais uma vez, quem tem a voz da verdade nessa história toda em meio a uma sociedade que constantemente culpabiliza a vítima de estupro pelo abuso sofrido por ela?

Acho que muitas pessoas estão delimitando as coisas por demais. Pessoas ruins são capazes de realizar feitos maravilhosos e obras geniais da mesma forma que pessoas boas são péssimas quando tentam pintar, escrever, atuar ou simplesmente arrumar o cadarço do tênis. O agressor pode ser seu melhor amigo assim como pode ser seu respeitado diretor inatingível. São seres racionais, pessoas inteligentes e interessantes que fazem isso, não sei porque fazem, mas fazem. Isso não as muda como inteligentes e respeitáveis. Se a gente for pensar que agressores são apenas pessoas descompensadas, transtornadas, verdadeiros “monstros”, estamos lascados, o agressor também pode ser quem a gente ama. E nem por isso vamos deixar de amar, o que fazer com esse amor que ainda sentimos é que é o caso.

Sei bem que é muito difícil separar o artista da pessoa, em alguns casos eu consigo e em outros nem tanto. Como comentou a cantora Marina aka “Marina and the Diamonds” no twitter recentemente, “quem pode resistir ao deleite de bons filmes ou boas músicas?” Cada um sabe dos fatos e cabe a cada um decidir se prefere trabalhar ou não com um estuprador, se prefere homenagear ou não um estuprador. E se eu aplaudir o Woody Allen será que não estou ignorando todas as pessoas que já sofreram abuso sexual? Eis a questão. Mas não julgo a Diane Keaton ou Cate Blanchett, por exemplo, sei que elas devem ter os seus motivos que podem ser inúmeros.

Em casos de estupro e pedofilia eu sinto em dizer, mas não posso ignorar que o magnífico diretor de Manhattan também é (ou pode ser) um inescrupuloso pedófilo que abusou da própria filha (Sim, apesar de não adotada por ele, ele era a figura paterna para ela). Nem deixo de ignorar o fato de que homens têm mais respaldo na sociedade. E nem ignoro as estatísticas de que é quase sempre improvável que alguém acusado de abuso sexual seja inocente, quando comprovado, mesmo que saindo ileso de cumprir a pena. Não deixarei de ver e quase sempre admirar os filmes de Allen, nesse caso eu quase consigo separar o artista do abusador, mas não nego, eu infelizmente fico com gosto amargo na boca quando lembro que tudo foi feito por uma pessoa horrível. Ou não, repito, meu veredito não importa. O que parece importar é o poder do opressor, mas ouvir o que Dylan Farrow tem a dizer não lhe parece importante?

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Sobre Carolina Alves

Feminista, cinéfila, bookaholic, Assistente Social, mestranda em Sociologia, desbravadora insaciável dos estudos de gênero, vive dando sua opinião não-requisitada sobre música, tv, cinema, política, literatura, vida alheia e futilidades acaloradas via twitter. @fuckyeahcarol
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