I recommend biting off more than you can chew

Em certo momento da minha vida, percebi que eu tinha que me manter vigilante com as coisas que vinham acontecendo a minha volta e notei como tudo muda quando a gente deixa de jogar no nível “easy” e passa a ter esse tipo de percepção. Então, sem entrar em detalhes, involuntariamente adotei a postura de me manter atenta, aprendi muita coisa entre o muito que deixei passar. Apurando algumas das lições que pude absorver de uns tempos pra cá, eis que citarei algumas.

Aprendi que temos que ir a escola, chegar na hora, ouvir o professor, almoçar ao meio-dia, dormir cedo, acordar cedo, aprendi a diferenciar o certo do errado, a procurar pelas respostas certas, aprendi que o certo estava nos livros, aprendi a discordar.

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Também aprendi a entrar na linha, a se portar como “uma mocinha”, que uma mocinha senta sempre com as pernas fechadas, aprendi a discordar mais ainda. Descobri que nada me tirava mais do sério do que alguém me pedindo pra fechar a porra das pernas e dizendo que eu só tinha essa opção, sentar daquela forma e que ela era adequada, não tinha descoberto ainda o porquê, ser “uma mocinha” não justificava pra mim, daí eu ficava completamente aporrinhada e fazia questão de fazer o contrário, discordando mais ainda. Então, aprendi toda a estruturação que separava meninos de meninas: gênero, idade, turmas, capa do caderno, cor da mochila, saia, sapatos, azul, rosa, boneca, carrinho.

Aprendi entre outras que as meninas devem estar sempre sorrindo e sendo agradáveis e que se por acaso os meninos são agressivos e agitados, tudo bem porque é “da natureza” dos meninos serem assim. Aprendi que tudo já vinha pronto e que cabia a cada um de nós aceitar, mas ainda assim, discordei.

Pude aprender muita coisa, agradecida, pude mesmo, o que me levou a mais discordâncias e descobertas. Minha mais recente descoberta, originada de mais uma discordância, vem me entristecendo, me cansando, mas tudo bem, faz parte de mim isso de se sentir desconfortável a cada nova descoberta, faz parte dessa minha vigilância que sem querer querendo tive que adotar, este inconveniente sem fim.

Descobri que em uma roda com cerca de mais ou menos 10 pessoas, se eu tocar no assunto em que mulheres e negros continuam ganhando menos que os homens cis brancos, por exemplo, pelo menos 08 vão olhar torto pra pessoa torta que sou eu, ao levantar meu inconveniente.

Discordando eu pude conhecer muito das pessoas, e essa é a pior parte da história, conhecer as pessoas nem sempre pode ser doce. Aprendi que as pessoas têm mais ego do que ideias e assim descobri que a vida não é doce como fui orientada quase sempre que seria.

Não aprendi a dar um jeito nos começos sem rumo, ainda hoje tenho uns 20 começos sem rumo em minha vida, coisas que fui empurrando com a barriga e até hoje me cobro de que devo finalizar, outras que já dou como superadas mesmo sem desfecho.

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Também não aprendi como determinar a chatice das coisas, das pessoas, dos assuntos. Porque chata é a pessoa que defende e luta por direitos, mas não é chato quem diz que você até pode defender direitos, mas não pode defender demais, “não pode levantar bandeira” porque aí você é chato. É chata a pessoa que posta em sua própria rede social a foto da sua cara feia, mas não é chata a pessoa reclamando da cara feia da pessoa e ainda assim continuar seguindo ela pra ver mais cara feia e ficar se lambuzando na mesma merda sempre. É chata a pessoa que prefere não seguir uma doutrina religiosa, mas não é chata a pessoa diz seguir tal doutrina, mas na prática comporta-se como um verdadeiro cretino.

Aprendi que as coisas são assim, mas não entendo. Porque se as coisas são assim como as pessoas insistem que têm de ser e não precisa mudar nada, então evoluímos até os dias de hoje pra nada? O sujeito ou a sujeita lá dos primórdios poliu pedra e inventou roda a toa? Então vamos parar agora pois já evoluímos demais e agora daremos um basta nisso pois o que os antepassados fizeram já foi suficientes e agora devemos nos acomodar e aceitar as coisas como ainda são?

Aprendi mas não entendi. Aprendi a aprender. Aprendi a aceitar e fingir que aprendi. Aprender é diferente de entender e aprender nem sempre é aprender de verdade, pois você tem que de fato entender pra aprender de verdade, do contrário você só vai tá reproduzindo mecanicamente sem ter aprendido absolutamente nada. E seria isso o que tenho feito desde os tempos de escola?

Aprendizagem ou não, tudo isso que a vida engatou foi ponte pra que eu parasse pra ver com clareza as coisas além do meu mundinho limitado e mesmo que fora dele tudo seja mais difícil eu pudesse me permitir continuar vendo o lado esquerdo não privilegiado desse conto todo chamado realidade e persistisse em estar nele reivindicando pela mudança do que foi construído pelo outro lado como sagrado. Pois sagrado é tudo o que eu resolvi combater, pois se o sagrado é intocável, não pode ser modificado e se não é mutável de que vale aprender tudo isso?

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Sobre Carolina Alves

Feminista, cinéfila, bookaholic, Assistente Social, mestranda em Sociologia, desbravadora insaciável dos estudos de gênero, vive dando sua opinião não-requisitada sobre música, tv, cinema, política, literatura, vida alheia e futilidades acaloradas via twitter. @fuckyeahcarol
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